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Pensando Alto - em voz alta


A PEDIDOS...

A carta de Cleomar:

“Um dia, uma noite, algum boêmio sempre pede a saideira e os garçons nunca gostam dessa história. Mas, o certo é que sempre chega a hora da última saideira. Dessa vez, chegou minha hora, meu último gole.
Eu, pessoalmente, não diria que estou indo contrariado. A hora e a vez de Matagra. Afinal de contas, soube beber com sede de aprendiz o melhor que havia na taça que a vida me ofertou. Uma taça lavrada, rescendendo a conhaque.

Nadei nas águas mornas de Arembepe, conheci Raulzito quando ele ainda se juntava aos seus panteras, com Thildo Gama e outros, vi Caetano, Moraes Moreira, Pepeu no encontro de trios, enquanto o poeta apontava com a mão a Baía de Todos os Santos. Arpoei caramuru, tirei polvo da toca, garanti as moquecas da minha adolescência, fui recordista de natação, ungido por Oxalá.

Fui bom de porrada, fiz meu nome nas turmas de rua do Lago dos Aflitos, joguei futebol e, nos babas, ganhei o apelido de “Leonam” onde sou conhecido assim até hoje. Fui batizado nos puteiros da Ladeira da Montanha, conheci Mestre Pastinha e Mestre Bimba, vi meu “Bahêêêa” ganhar para o escrete do Santos e Waldemar Santana encher Hélio Gracie de porrada.
Conheci os mistérios dos becos e ladeiras da velha Salvador, fui amigo de Cid Teixeira, Capinam, Guido Guerra e Luís Orlando, encarei dois anos de internamento no Hospital das Clínicas, tive febres diárias, colecionei escaras coloridas, vibrantes e sangrentas, decepcionei laudos médicos, busquei o tempo que eu queria da minha vida.

Um dia, uma brisa morna me carregou para o colo da bela Aracaju, onde eu soube ser feliz, no tempo que me restava. Aqui, bebi os melhores conhaques da minha vida, amanheci nas libações madrugadoras com o amigo-irmão José Eduardo Sousa, soube ouvir o violão de Pantera, a melodia de Paulo Lobo, o blues de Soyan, as conversas de Mariano e Bel nas andanças do Imbuaça. Aqui, plantei amigos, colhi irmãos, como o grande parceiro Gilson Sousa. Aqui, ouvi a melodia do Cataluzes, comi o melhor pirão de caranguejo do Pastelão, me fartei dos mistérios culinários da cozinha de Camilo.
Nessa terra, amei mulheres que reverencio até hoje. Fiz poemas para algumas, embriaguei-me com outras. Como esquecer do sorriso de Arlinda, que ganhou o mundo e acabou na Sorbonne? Como esquecer do sorriso sacana de Ana Paula? E os finais de tarde no Mosqueiro? E o chiado da tainha na frigideira do Bar de Nem? E a amizade terna da turma do JORNAL DA CIDADE e da Aperipê TV?
Um velório como queria:
música, Domec e cerveja
Como esquecer da lealdade de meus irmãos a vida inteira? E de Christina Brandi, cunhada que se tornou irmã? E da cumplicidade do irmão Chico Neto, que trilhou a vida inteira os caminhos do bom jornalismo, ético e honesto?
Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo, sem tristezas nem vexames. Apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de crianças nos olhos.
Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho?
PS: Os amigos estão convidados para a última saideira no Bar do Camilo, assim que terminar o sepultamento. Já está pago.”



Escrito por escrito por Sônia às 20h04
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Cleomar Brandi

Há uma semana, perdi o meu amigo Cleomar Brandi. Ele nos deixou e, com certeza, está no céu, que é lugar de anjo, de passarinho, de sol, de lua e estrela. Cleomar era tudo isso e muito mais. Nossa amizade é de 1985, quando chegamos a Aracaju - eu do Rio e ele de Salvador - para trabalhar na TV Aperipê - TV Educativa de Sergipe. Começamos juntos a fazer a história da TV Aperipê. Nós e mais algumas dezenas de amigos queridos. Todos muito tristes, hoje, com essa perda. Cleomar usava uma cadeira de rodas. Aos 17 anos, um vírus o levou para um hospital, onde passou dois anos. Depois, mais 6 de cama, em casa, com febrões, escaras e dores. Até que um dia, ele acordou molhado de suor e sentindo um perfume forte de flor por todo o quarto. De repente, sentiu energia suficiente para deixar a cama. E para ela, só voltou para dormir, todas as noites, por 4 ou 5 horas, apenas. 

Cleomar amava a vida, as palavras, as mulheres, os livros, o jornalismo e os amigos. Não exatamente nessa ordem, mas para ele tudo isso era muito importante. Ele também gostava da natureza, do mar, onde costumava nadar sempre que podia.  

Cleomar e Deda

Em Aracaju, Cleomar era O jornalista. Todos queriam fazer um estágio com ele, todos queriam beber dessa fonte de sabedoria, todos queriam desfrutar da companhia dele. Era uma unanimidade, um boêmio, um sedutor, gentil e generoso. Ao logo dos anos, como se a paralisia fosse pouco, Cleomar teve câncer, diabetes, erisipela, problemas de coração e humor, muito bom humor. Nunca vimos Cleomar reclamar da vida ou das dores que sentia diariamente. Nunca parou de trabalhar, tinha, sempre, 2, 3 ou 4 empregos. E tempo para os amigos, para muuuitos amigos. O aniversário dele, 18 de janeiro, já era uma data importante no calendário da cidade. Sempre começava no sábado, às 10 da manhã e invadia o domingo, sem dó.

Os pouquíssimos inimigos de Cleomar eram por conta das mulheres. Elas não resistiam ao cavalheirismo, à inteligência, à poesia de Cleomar. Elas se derretiam pra Cleomar e por Cleomar. E isso, muito homem não conseguia entender. Ele se divertia com isso...

Cleomar e o livro que escreveu

Quando soube da morte dele, só pensei em Arlinda, o grande amor da vida dele. Há muitos anos, ela tinha saído de Aracaju para Brasília. Depois, para a Bélgica e em seguida, para a França. Mas, soube que ela estava em Aracaju, ao lado dele no hospital, que tinham feito uma oração juntos 15 minutos antes. Gilson, amigo e parceiro de Cleomar, disse que ele morreu tranquilo, apenas fechou os olhos e parou de respirar.  Pouco tempo antes, havia confessado que estava cansado, que a alma precisava descansar. Afinal, foram 65 anos de luta diária, constante. Cleomar foi incansável, um verdadeiro vencedor, um exemplo de superação e resistência.  

na casa de Wilson Goes

Antes de morrer, Cleomar deixou uma carta, onde ele conta o que viveu de bom e se despede: Um dia, o velho barril de carvalho pinga sua última gota de conhaque. E o poeta se despede de tudo, sem tristezas nem vexames. Apenas sabendo que cumpriu seu papel com dignidade, com honestidade e com um brilho de crianças nos olhos. Quem sabe, eu encontre o amarelo dos girassóis nesse novo caminho?
PS: Os amigos estão convidados para a última saideira no Bar do Camilo, assim que terminar o sepultamento. Já está pago.”

E tudo aconteceu como ele queria: cantoria no velório e a saideira no Bar do Camilo, após o sepultamento.

Cleomar, que saudade de você...!



Escrito por escrito por Sônia às 16h56
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