Ana Cardilho é uma editora poderosa, disputada entre os grandes da tv. Eu a conheci quando ela passou pelo PEGN. Digo passou porque ela não ficou muito tempo. Ela mal chegou e já teve uma proposta irrecusável, não dava para ficar. Só foi o tempo de chegar, brilhar e sumir.
Ana
Há uns 3 dias, ela me escreveu e relembrou as nossas abobrinhas da hora do almoço, aqui, no nosso "espaço gourmet". Vejam o texto dela abaixo. A minha fama de bruxa vai ganhar o mundo!
O PODER DE UM BOM EBÓ Estou em falta com minha amiga Sonia, a moça do ebó. Digo que estou em falta porque meses atrás, meio por brincadeira, meio por necessidade, encomendei a ela um ebó. Explico. Estávamos almoçando e ela contou que era uma poderosa fazedora de ebós. Mas, não qualquer ebó. Nada de galinha magra, farofa pobrinha. Sonia costumava fazer ebós em Paris, Champs-Elysées só para começar. Fiquei impressionada. Pedi na hora para ela amarrar um ponto e pedir aos seus santos para que um exu saisse do meu pé, que arrumasse um novo amor e deixasse o MEU AMOR em paz. Como tratava-se de um exu dado a Brás, Bixiga e Barra Funda, com direito a sotaque a la Parque Antártica, o ebó seria feito sob o vão do Masp. Afinal, quer lugar com influência mais italiana, mais "Ciccillo"? A comida para o santo teria brusquetas de entrada, daquelas lotadas de alho, uma bela pasta com massa caseira e molho a bolonhesa, bastante manjericão, e muito vinho tinto. Poderíamos invocar São Genaro, Santo Antonio, São Ludovico, sei lá. Pouco sei de santos e entidades. O importante é que a magia funcionasse, que alguma mulher deste mundão de Deus, santos e pecadores baixasse seus santos olhos para o bofe chato e o levasse para bem longeeeeeeee..... Os meses se venceram. O ebó se fez certeiro. O cara se casou. Sumiu... Santa Sonia! Ah, casei também.... E, feliz da vida, posso dizer que eu e MEU AMOR, finalmente, estamos em paz. Um ano se passou. Agora respiramos. Há janelas abertas no novo apartamento, há orquídeas pela casa, há energia boa, uma linda vira-lata enluarada que dorme aos pés do menino mais bonito do mundo. E começamos a rir... Já podemos rir de tudo, do nada, de nós mesmas, do diferente que fizemos, da vida virada de cabeça para baixo e da descoberta de que: O AMOR TUDO PODE! ANA CARDILHO 15/12/2009
Hoje, eu acordei com a voz da Mrs. Sturge me chamando, aquela voz mansinha, um sotaque aristocrático...foi tão real! Será que Mrs. Sturge morreu? Eu gostava dela, adorava aquele sotaque e o cuidado que ela tinha com a gente. Mrs. Sturge era a dona da casa onde eu fiquei, quando fui fazer intercâmbio, na Inglaterra. Ela e o marido moravam numa casa enorme, com um jardim cheio de rosas vermelhas e um quintal delicioso. E era numa casinha muito requintada instalada no quintal, que um casal de pugs, muito bem educado, morava. Nunca ouvi um latido desses cachorrinhos. Além deles dois, 3 japonesas, uma canadense, um russo, um coreano, uma coreana e eu morávamos naquela casa de 10 quartos e um único banheiro. Nunca encontrei aquele banheiro ocupado, uma pessoa saíndo ou entrando, uma coisinha fora do lugar. Ele estava sempre limpo e cheiroso.
Mrs. Sturge na sala de TV
Mr. Sturge era quiroprata, atendia os clientes numa das 3 salas da casa, todo de branco. Quando ele não estava de jaleco, era um desastre: um misto de Agostinho de "A Grande Família" com aquele cientista maluco de "De volta para o Futuro". Ele tinha uma cara de maluco. Não sei como conseguia clientes. Mas estava sempre sorridente.
Mr. Sturge sem jaleco
Mrs. Sturge tinha sido uma espécie de banqueteira no Palácio de Bunckinghan. Ela fazia os jantares, organizava os cardápios e as recepções da família real. Quando ela se aposentou, começou a receber estudantes em casa. Nos meses que passei na casa dela, ela nunca repetiu um prato, exceto o tradicional Fish & Chips, servido às quartas-feiras, em todo o país. Era F&C no almoço da escola e no jantar em casa. Este era o meu sacrifício. Mas nunca reclamei. O que eu gostava, mesmo, era das sobremesas. A minha preferida era Trifle - feita com frutas vermelhas, creme e geleia. Tinha com chocolate, também. Eram vários sabores. Eu gostava tanto que, quando vim embora, ela me deu um livro só com receitas de Trifles. Eu nunca fiz uma. Acho que não teria graça comer Trifles aqui.
Mrs. Sturge e as suas irresistíveis sobremesas
Um belo dia, eu e Sunny, a coreana, fomos ligar cada uma pra sua casa. Quando ela saiu da cabine, me deu a notícia: minha mãe está com câncer no cérebro. Eu fiquei atordoada e me deu logo um nó na garganta. Pra lágrima pular do olho só faltava um "snif" dela. Mas ela segurou o choro até em casa. Quando chegamos, ela desabou pra um lado e eu pro outro. Mrs. Sturge veio correndo, sem saber o que tinha acontecido. Eu contei e ela sugeriu que eu ajudasse Sunny a arrumar as malas pra voltar pra casa. Mas Sunny disse que não ia adiantar voltar, não mudaria nada se ela voltasse, ia continuar a vida dela assim, mesmo. Esta tinha sido a conclusão a que ela e o pai teriam chegado. Eu e Mrs. Sturge ficamos chocadas, mas não dissemos nada. Apenas nos olhamos, tentando uma comunicação telepática. Sunny foi dormir com meio copo de uísque puro que Mrs. Sturge deu pra ela beber de uma só vez. No dia seguinte, a vida continuou.
Estou com saudade. Tomara que eu tenha tido, apenas, um sonho e que Mrs. Sturge ainda esteja aqui, entre nós, os vivos.
Depois de alguns dias de chuva e frio, eis o sol. Hoje ele apareceu devagarzinho, discreto, sem querer chamar a atenção, quase pedindo licença. Na verdade, a hora é dele. O frio é que insiste em ficar, parece que deu preguiça de ir embora. O sol precisa ser muito macho, chegar aqui de uma vez e se impor. Queria muito um verão igual ao de Aracaju: aquele céu azul, sem nuvens, aquela certeza de sol o dia inteiro, de sol a semana inteira, praia perfeita... Acho que nunca vamos ter isso por aqui. Por outro lado, dá para dizer que, aqui, não há monotonia climática. A gente acorda com 35 graus e vai dormir com 12, facinho, facinho... A qualquer momento, pode chover. Tudo é possível.
a nossa rua vista da varada
Hoje, ainda ameaçou chover. Por isso, ficamos em casa. Foi um dia de preguiça. Eu, no computador escolhendo o destino da nossa próxima viagem, em abril - em fevereiro, quero estar com tudo resolvido. E João Miguel, na cozinha, às voltas com carne, cerveja e champignons, fazendo um prato pro nosso almoço. Nem preciso dizer que estava tudo uma delícia. Eu devia ter registrado. Quando João Miguel vai pra cozinha....muito prendado, esse moço. Já estou pensando que sou um espírito superior, pra merecer tudo isso.
Robin Williams costumava mandar muito bem em humor grosso. Era viciado em cocaína e elétrico no palco. Passou parte dessa energia para algumas performances – Popeye, Bom Dia Vietnã, Alladin.
Depois largou o vício e foi ficando cada vez mais sem graça, fazendo filminhos chochos “para toda a família”.
Virou filantropo, tem carro elétrico, é ciclista etc. Seus filmes como protagonista são intragáveis desde Hook, 1991, em que faz um Peter Pan envelhecido.
Olha ele aqui nos bons tempos tirando sarro dos cheiradores: “uma droga maravilhosa!”
Robin ainda manda mais ou menos bem em pontas (como Teddy Roosevelt, nos dois Uma Noite no Museu) e em entrevistas – cospe piadas e imitações como uma metralhadora. Na de ontem, no David Letterman, explicou assim como o Rio ganhou de Chicago, na disputa para ser sede das Olimpíadas:
“Chicago enviou a Oprah Winfrey e a Michelle Obama. O Brasil mandou 50 strippers e meio quilo de pó. Não foi uma competição justa.”
A história acabou de rolar e já vi um post reclamando, “humor duvidoso” etc. Qual o problema? Qualquer alvo é bom alvo para uma piada.
Letterman esculhamba toda noite sua amada Nova York. Se Robin quisesse tirar sarro, sei lá, da França, ia dizer que na Olimpíada de Paris não ia ter chuveiro, porque francês não toma banho.
O problema é que a piada sobre o Rio não é engraçada. Tanto que ninguém na plateia riu.
Mas é um tantinho reveladora da nossa imagem nos Estados Unidos. Por que pó? Porque no Brasil está cheio, e os filmes brasileiros que chegam lá fora falam exatamente de tráfico, favelas e tal.
Por que cinquenta strippers? Ora, porque nossas mulheres têm fama de bonitas, e porque de fato está cheio de stripper brasileira nos EUA.
Uns anos atrás peguei um táxi no aeroporto de Nova York, JFK, e o motorista brasileiro e ilegal me convidou para uma bandinha noturna por New Jersey, “está cheio de stripper brasileira e essas, dependendo da grana, dão”.
Thanks, but no, thanks.
A piada também sugere que o Brasil não tem as mesmas armas dos países ricos para ganhar uma competição. Temos tudo aqui, cara, inclusive o Eike Batista.
O importante não é competir. O importante é ganhar. Medalha de ouro, você vira garoto propaganda de um monte de marcas, é recebido pelo presidente etc. Sem medalha, sem moral.
O Rio ganhou para ser sede da Olimpíada? Vai correr um rio de dinheiro na direção certa, para os bolsos certos. Chicago? Dançou.
O importante é ganhar, mesmo que via anabolizante. O fundamental é não ser pego.
Esta é a “ética” dos esportes e dos negócios, no Brasil e em qualquer lugar. Robin entende de drogas, mas não entende de doping.
Minhas viagens costumam durar muito mais do que o tempo entre a partida e a volta. Dependendo do destino, levo um, dois ou três meses me planejando, vendo mapas, estabelecendo prioridades. E isso já me deixa feliz. Não foi diferente quando fui, agora, a Aracaju. Por uns 2 meses, fiquei tentando distribuir os parcos 9 dias que teria entre os meus amigos, minha família, meu trabalho, a praia e a cama - me planejei para dormir 10 horas por dia. Obviamente, não deu tempo. Não vi todo mundo que queria, não descansei tudo o que precisava, não matei a saudade como deveria. Só deu, mesmo, para confirmar que, quando a gente se aposentar, a gente vai morar perto da praia - Aracaju, Sul da Bahia, região dos lagos, no Rio, no litoral de São Paulo ou numa cidade de Alagoas, que tem o mar mais bonito de todos que eu conheço.
Eu sempre gostei de cachorros por eles serem espontâneos, dispostos e positivos. Já com gatos eu nunca simpatizei muito. Gato se assemelha muito à nossa raça, atua como leão dominando o seu território; é curvado, imprevisto, rodeia muito para dizer o que quer, é introvertido, anguloso e tem uma fisionomia impassível, que a gente encontra em certas pessoas, com dois olhos que não dormem.
Acho que não confio nos gatos porque eles guardam esse ar de mistério, são interesseiros e não sabem agradecer um carinho. Os cachorros, não, têm olhos de doar. Se aproximam mesmo quando não são chamados e sorriem, sorriem sempre.
Eu nunca tinha me dado conta, até o dia que uma amiga me mostrou que seu cachorro pequeno sorria. Eu olhei pra ele com o sorriso lá dentro de mim econstatei mais tarde: não é que ele sorria como quem ri pra se esconder da tristeza?
Um dia meu pai inventou de arrumar um novo cachorro para fazer companhia ao mais velho que tínhamos, Puppie. No dia que Beethoven, como assim era chamado, chegou lá em casa, eu esperava ansiosa por um dálmata, quem sabe um labrador…
Mas, que nada! Aquele cão, batizado no Campo da Vila, no interior de Sergipe, não tinha nada que lembrasse a elegância desses cachorros que passeiam com seus donos pelos parques. Ele chegou afobado, com náuseas que o deixaram com um aspecto torpe de pessoa embriagada, com um pelo sujo e afiado, um cachorro-espinho.
Tinha um pelo meio grisalho, apesar de ser muito novinho, e aparência de um homem de barba mal feita entregue à sorte. Andava com suas patas cambaleantes e equilibrando o sorriso no rosto. Ele nos olhou, balançou o rabo lento, como se nos cumprimentasse por educação, parecia cansado, de um cansaço triste, pela viagem longa demais, pelo vômito, pela mudança de lar…
A gente o levou até o jardim, se me lembro bem, a contragosto.Ele parecia feio demais, magro demais, cinza demais, cachorro demais. Vinha um, vinha outro, olhava para ele com um olhar de gato e o depreciava…”ai, tadinho…feio, né?” Mas, ele como que já recuperado da sua ressaca, não se intimidava. Pelo contrário, sentou-se no chão de pedra seca, se esticou e balançou o rabo, feliz, como se ignorasse o que dizíamos. Depois fez um pouco de graça, se levantou, lambeu, chegou mais perto, parecia uma pessoa que, cansada de sofrer, decidiu transformar ofensas em carinho.
ME LEVA PRA CASA?
Nessa mesma noite eu o batizei Bono e ele aceitou o seu nome como se soubesse que era bom de verdade, um cachorro com alma.
Com o tempo eu passei a amar aquele vira-lata de pelo amassado, um feroz exíguo, meio atrapalhado, que dava saltos treinados no ar, malabarista, e eu passei a chamá-lo de cachorro de circo.
Um dia eu descobri que Bono não era apenas um cachorro que ria estático, que corria atrás de quem passasse na rua, guadião da nossa casa; ou aquele que cativou nossos coraçoes. Ele era tão confiante e audaz (se atreveu a fazer xixi nas minhas costas duas vezes!) que tinha certeza daquela conquista…e devia debochar das nossas visitas ao passado:“Ah, não, eu nunca disse que ele era feio. Mas, em compensação, todo mundo disse”…
Bono tinha uma alma em segredo, que vigiava os sentimentos de quem frequentasse aquela casa. Eu tinha mania de ficar no banco do jardim pensando na vida. Um dia eu sentei ali, mas não pensava em nada. Iluminada por uma tristeza, me sentia sozinha e chorava de dores que já nem lembro.
Foi quando Bono se aproximou e como se me perguntasse o que aconteceu, subiu no banco e ficou ao meu lado, respirando o mesmo ar triste, com seus dois olhos de consolo. Só saiu de perto quando me viu sorrir, já mais animada, e agarrar o seu pelo, do jeito que eu fazia, como se segurasse duas bochechas macias.
E assim ele era com todo mundo. Sensível, não suportava o peso de uma lágrima no chão, parecia saber o que era dor, dono de um coração de pétalas..quantas vezes Bono se aproximou, colou seu rostinho na minha perna, se enroscando até encontrar uma posição confortável, geralmente no meu colo… Ah, quantas vezes ele consolou coraçoes decepcionados, cansados da vida, por não suportar ver uma ausência no rosto do outro.
No dia da sua morte ele parecia haver ensaiado suas últimas horas sem esquecer de nenhum detalhe: acordou feliz, brincou, deu seus últimos pulos, já a um passo das nuvens, fez sua última refeição.
Depois foi dormir, e dentro do sonho ele saiu da sua vida ileso, em silêncio, sem dor.
Eu não o via há um ano, e a notícia da sua morte foi tão violenta que chorei desaguando uma dor nova dentro de mim, a da perda, sentada numa cadeira, murcha e amparada pelo homem que leva a sério minhas dores infinitas, pelo homem que Bono confiaria deixar no seu lugar como o mais novo companheiro das minhas lágrimas.
(E alegrias também, meu cachorro de circo)
P.S. O cachorrinho da foto não é o Boneco (eu também o chamava assim). Mas é fofo, né?
Semana passada, estava fazendo hora numa livraria e, induzida pela funcionária, comprei um livro de Costanza Pascolato. Pelo título, "Confidencial", achei que era uma biografia ou coisa parecida e não pensei duas vezes. É que, há muitos anos, eu tinha lido uma entrevista dela numa revista e adorei. Se eu não me engano, ela se casou com um homem riquíssimo, poderosíssimo, teve 2 filhas e, um belo dia, apaixonou-se por outro. O outro era pobre. Mesmo assim, ela largou o rico e ficou com o outro. Rompeu com a família, com a vida de luxo, teve que trabalhar para comer, até que ele morreu. A história era incrível, eu daria tudo para achar essa entrevista! Bom, comprei o livro só pela lábia da funcionária. E era o segundo que comprava. O primeiro é sobre Berlim, que ela também indicou. Além de inteligente, boa vendedora. E eu fiquei pensando: ela poderia trabalhar num lugar melhor, ganhar mais. Depois, pensei: pra trabalhar numa livraria, ela tem que entender de livros, ler etc. Para trabalhar na Cultura, por exemplo, os candidatos passam por uma seleção rigorosa, de várias fases. E o salário é de 4 mil reais, para 6 horas de trabalho. Será que ela chega a ganhar 4 mil?
Costanza Pascolato
Bom, voltando ao livro. Não era uma biografia e sim, "segredos de moda, estilo e bem viver". Imaginei que fossem aqueles conselhos de sempre: a gente tem que ser magra, loira, alta, bonita, inteligente, não pegar sol, malhar, estar sempre bem disposta, comer como um passarinho, ter orgasmos...saco! Quem disse que é melhor assim? Para minha surpresa, este não é o discurso dela. Num mar de gente pensando igual, repetindo conceitos, modelos e padrões, é de se estranhar. No livro, ela ensina a pessoa ser feliz como é, com o que tem, não faz apologia à magreza, à loirice e sim a valorização das características. Tudo muito coerente com o que tinha lido há alguns anos. O livro é legal e divertido.
"Há lingeries bonitas, bem-feitas, mas muitas são um grito de desespero: "Ah! Quero ser sexy", "Há! Tenho que conquistar!", "Ah! Ninguém vai resistir". E mostra o peito, mostra a barriga e faz buraco e enfeita o buraco com lacinho. Fico meio impressionada com tudo isso, mas cada mulher faz o que quer - e algumas até se dão bem".
Palmeiras e Corinthians estão jogando. Da janela de casa, ouço os gritos de uma torcida. Deduzo que foi gol do Corinthians e acerto. A diferença entre as torcidas é gritante.
Eu não resisti e copiei o texto, abaixo, do blog da minha amiga Paloma, que mora em Leeds, Inglaterra. Como alguém pode escrever tão lindamente como ela?! O blog dela é www.omundopequeno.com
Encontros e contratos
Written by Pam on October 27th, 2009
Sempre imaginei como seria um encontro com um escritor famoso. Não me refiro a um encontro formal, por detrás de páginas de livros autografados, ou de frases soltas roubadas numa entrevista. Mas, um encontro de ombros lado a lado, com pausas na caminhada, com pétalas e páginas, numa tarde de outono vendo as folhas que caem do céu e voam como pássaros quebrantados.
Já tive o sonho de conhecer Clarice Lispector, de abraçar Drummond,ou de recitar um poema com Manuel Bandeira, “Parságada, meu caro, é para lá que todos irão”. Já desejei,de verdade, tomar uma dose de haikai com Paulo Leminski, entrar na cabeça de Lewis Carroll, dar um passeio no submundo de Dostoyevsky, ler bem alto Um amigo de Kafka,de Isaac Singer, e recuperar a esperança na vida, com as páginas de uma nova história ondulando na palma da minha mão, como um corpo avançando o mar, desafiando as ondas, sua força insípida.
Ah, sim, todo leitor tem um sonho de salvação, um desejo de encontrar a verdade. Todo leitor se arrepia com a intimidade que se estabelece, às vezes promiscuamente, com o seu escritor favorito. Que leitor não leu Nelson Rodrigues e se olhou no espelho, com aquele olhar sem pudor que prevê fatalidade? Que leitor nunca criou uma ligação infinita com o seu escritor preferido, já se sentiu entendido, enfeitiçado por uma verdade que às vezes só existe na imaginação do próprio criador? Quem nunca se envolveu e se deixou seduzir por uma história? Eu mesma chorei de raiva quando o escritor misterioso do A noite do oráculo de Paul Auster, decide trair sua mulher.
A ilusão é o contrato entre leitor e escritor; no momento em que o leitor abre o livro, lê a primeira página, ele se entrelaça no mistério da vida, é como dar as mãos a um estranho que parece nos conhecer tão a fundo, daquela maneira de se conhecer alguém escancarando as portas.
Eu já aceitei esse convite tantas vezes. E até já ouvi histórias de leitores que deram mais que um pedaço de carne, venderam a alma. O meu primeiro encontro violento aconteceu há muito tempo, com Clarice Lispector. Quando eu a lia, eu tinha vontade de chorar, amarrada que estava à sua essência, violada pelo desejo de ser Clarice.
Mas, haviam muitas Clarices espalhadas. Aos poucos, eu entendi que existia um sentimento de Clarice em muitas mulheres, muitas a sentiam na pele, e eu achei que fosse apenas mais uma leitora, mas uma leitora de olhos desconsolados e tímidos.E com uma felicidade de ombros encolhidos. Amo Clarice,mas quando leio (ou releio) os seus textos, eu sou a mesma, ela só me empresta os seus olhos. E depois saio livre e cega pra minha realidade.
Mas, existem os encontros inocentes (ou não). Um dia meu irmão trouxe da biblioteca o livro As meninas, de Lygia Fagundes Telles, eu soube que ali estava a minha salvação. Não tinha idéia do que me salvava, se do tédio dos meus 17 anos, ou da ansiedade de crescer e avançar para o mundo. Desde a primeira página eu sabia que aquela leitura era especial, uma certeza borbulhava dentro de mim.
Durante alguns dias eu fui uma das meninas de Lygia, eu contei com elas, eu escrevi do jeito que elas falavam, a gente se entendia muito bem… Até que eu terminei o livro, mas foi um término contente… Eu continuava a menina dentro das meninas…Depois, o meu desejo foi ler mais dessa escritora, que conta uma história de uma maneira tão especial que a gente se belisca para sair da pele do personagem.
Eu nunca pensei em conhecer Lygia Fagundes Telles, pra mim já me bastava a força com que atava minhas mãos às dela. E tinha sempre uma efipania de um conto seu, que pra mim era um conto verde, de purpurina, de uma alegria desesperada que só existe no carnaval…
Eis que um dia esse encontro chegou e eu nunca soube como escrevê-lo e talvez até tente outros rascunhos. Foi na primeira edição da feira literária de Paraty, no Rio de Janeiro, a hoje conhecida Flip. Na época, eu era estagiária de jornalismo, ansiosa e insegura. Pedi pra trabalhar na Flip na cara de pau e eles aceitaram, me deram crachá, acesso à sala dos jornalistas, computador, etc. Me facilitaram entrevistas com alguns escritores, como Marcelino Freire, coletiva com Paul Austen, etc…Mas, eu queria entrevistar Lygia, ela sim.
Numa tarde fresca em Paraty, eu saí em busca da autora de Ciranda de Pedra. Levava debaixo do braço o seu livro mais recente de contos, que eu queria ver autografado. Uma mulher me levou até o hotel onde ela estava hospedada. Numa das ruas de pedras de Paraty, de frente para um portão de madeira, eu a esperava, debaixo de uma chuva fina, com meu coração grosso, quente e palpitante.
Depois de uns minutos, Lygia apareceu acompanhada do seu acessor, muito elegante, como se saísse de um lugar onde o tempo não existisse. Surgiu como a responsável dos meus dias serenos, de leitura, de felicidade embevecida; como dona da minha lucidez àquela idade, surgiu a escritora.
Lygia me cumprimentou muito simpática, suas palavras tinham perfume. Disse num tom familiar que Paloma era o nome da namorada do seu filho, Paloma Rocha, e me senti gêmea dessa outra, um pouco sua nora também.
Ela tinha um objetivo àquela tarde: encontrar um cachorro (vi muitos perambulando pela cidade) para dar–lhe um bombom embalado em papel celofane verde. Lygia me deu sua mão e saímos de braços colados, caminhando em busca do destino verde. Ela não queria dar entrevistas. Queria uma companhia sincera. No meio do caminho uma bandinha atropelou nossa caminhada e Lygia aplaudiu aquele mini carnaval. Andávamos sem pressa.
Lygia autografou meu livro, escreveu uma mensagem linda. Tive a impressão de que entramos num labirinto, que era um sonho, tão absurda e feliz que me sentia. “Eu preciso registrar isso, tirar uma foto, senão vou pensar que é sonho”, pensei o caminho todo. E olhava de relance para ela, presa ao meu lado com suas mãos de laço.
Nas noites da minha infância quando eu dormia com minha mãe, só conseguia pegar no sono se segurasse bem forte as mãos dela, para que ela não me escapasse. Mas, eu sempre amanhecia solta, sem minha mãe ao lado.Quando eu dei mão e braço à Lygia, eu senti o mesmo medo infantil de acordar no dia seguinte para um mundo sem proteção.
E o filho de Sarkozy, hein?! Com toda a experiência que cabe em 23 anos, queria administrar La Défense, o bairro mais brega de Paris, mas, o maior distrito financeiro da Europa. Ele não ganharia um centavo pelo cargo, mas imagina o poder!!!!
Se Vinícius de Moraes estivesse vivo, ele estaria completando, hoje, 19/10, 86 anos. Há 29 anos, ele se foi, mas nem parece que isso aconteceu. A morte não combina com ele. Aliás, a morte só acontece para aqueles que acabam, que terminam. E Vinícius não acabou. Para ele, não existe ponto final. Apenas, vírgulas, reticências...
Acabei de ver que o Palmeiras está perdendo do Flamengo. Muito chato, isso, viu?! João Miguel fica chateado... Não gosto. Hoje, o pai, o irmão e um primo dele vieram de Bauru, para assistir ao jogo com ele. Lá se foram, depois do almoço, depois de assistirem à corrida, ao campo, que fica aqui pertinho de casa. Os quatro estavam animados, João Miguel e Gustavo de camisa nova, mas todos, sempre, com um pé atrás. Torcem, mas sempre esperam pelo pior. Não se pode confiar nos times, não é mesmo? Também... todos jogam por dinheiro, nenhum jogador tem amor ao time. Eu que não sofro com o meu Fluminense. Pode perder à vontade.
Marinho (o primo), João Miguel, seu Samir e Gustavo